Resenha do livro onde o humor encontra o caos tecnológico.

Li Qualityland, de Marc-Uwe Kling, há alguns meses e queria muito contar o que achei desse livro.
Desde o começo, já me vi mergulhada num mundo absurdamente satírico, onde as IAs dominam praticamente tudo: escolhas do dia a dia e até mesmo no nosso destino.
Essas inteligências artificiais não são só ferramentas ou personagens coadjuvantes, elas são onipresentes, controlando a vida das pessoas de um jeito que me deixou ao mesmo tempo fascinada e apavorada.
O papel das IAs em Qualityland
O livro brinca de forma muito inteligente com essa ideia de um futuro onde tudo é automatizado e as máquinas têm respostas para tudo, mas nunca faltam aquelas situações bizarras que só reforçam o quão fora do controle tudo pode ficar.
Eu dei muitas risadas com as descrições das IAs, que têm uma personalidade própria, nem sempre das mais amigáveis.
Tudo em Qualityland é pensado de maneira a otimizar a sua vida. Um sistema identifica seu parceiro ideal, vermes-androides em sua orelha dizem o melhor caminho a tomar no seu dia a dia, drones já sabem, só de olhar, que você precisa de uma cerveja gelada no fim de um dia cansativo de trabalho.
Nesse cenário, vive o protagonista, Peter Desempregado, que tem uma loja de artigos fora de uso, além de uma prensa de sucata para equipamentos obsoletos.
Um humor sarcástico com aquele pé atrás
A narrativa descontraída do Kling faz com que a leitura flua super bem, e o humor sarcástico dele é a cereja do bolo.
Gostei demais da ideia de um mundo onde o consumismo e o controle tecnológico andam de mãos dadas, expondo nossos hábitos e a imprevisibilidade das máquinas que tentam organizar tudo por nós.
Me diverti muito, mas confesso que fiquei com um pezinho atrás, refletindo sobre como a realidade está cada vez mais próxima desse universo maluco e engraçado.
Houve momentos em que me perguntava “e se isso acontecer mesmo?”, sabe? Em outros, me espantava pensando “mas isso já está acontecendo”.
Sem falar da loucura das máquinas com problemas pra lá de humanos: existem drones com medo de voar, droides sexuais com disfunção erétil, robôs de combate com transtorno de estresse pós-traumático e um advogado eletrônico que não consegue mais exercer a profissão porque desenvolveu um tipo de consciência.
E tem a minha androide predileta, Calíope 7.3, mundialmente conhecida e-poeta. Escritora de romances históricos, como “A estagiária e o presidente”, que está sofrendo de bloqueio criativo.

Sobre o autor: Marc-Uwe Kling
Marc-Uwe Kling é um autor alemão conhecido por seu humor afiado e sua visão crítica da sociedade moderna, especialmente no que toca à tecnologia e suas implicações.
Formado em filosofia, ele traz ao seu livro uma reflexão profunda sobre o capitalismo, a vida digital e como as inteligências artificiais podem influenciar nosso futuro.
Além de escritor, Kling é músico e comediante, o que ajuda a explicar o tom irônico e divertido que permeia a narrativa de Qualityland. Seu olhar anarquista reforça a crítica social que emerge do enredo, um olhar que nos faz rir, pensar e, por vezes, sentir aquele frio na espinha.
Resumindo…
Qualityland foi uma leitura que me prendeu do início ao fim, combinando humor, crítica social e uma pitada de suspense tecnológico que fez minhas emoções girarem num looping divertido e inquietante.
Recomendo muito para quem quer rir e pensar junto!
“(…) A culpa é sempre do sistema. Mas existem pessoas que são responsáveis pelo sistema ser o que é!” – Página 259
______________________________________________
Este conteúdo também está lá no meu substack Entrelinhas, um espaço onde compartilho meu amor pela literatura.
Descubra mais sobre Tânia Tiburzio
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.